A vida a 24 imagens por segundo
Arnie foi nomeado governador da Califórnia sucedendo a Gray Davis no comando de um dos Estados mais deficitários da América. A questão profissional de Schwarzenneger foi, como era previsto desde o início, usada e abusada contra e a seu favor. Num dos seus discursos, Arnie fez a certa altura uma brincadeira com o Exterminador Implacável, dizendo qualquer coisa como: «Gray Davis terminated jobs. It's now time for us to terminate Gray Davis.» Enfim, não consigo precisar a citação, mas creio ter sido qualquer coisa deste género. Será que o cerne de toda a questão eleitoral é perceber se a condição profissional do actor é positiva ou negativa? Será que a comunicação social pretendeu mostrar se o potencial governador poderia estar mentalmente menorizado ou, pelo contrário, mais capacitado para exercer a função de governador do Estado da Califórnia? Claro que não. O problema da comunicação social tem a ver directamente com o problema da mediatização tendenciosa. É um problema, de facto. Arnie tinha sempre as câmaras consigo - sem ilusões, foi isso que, em última análise, lhe valeu as eleições. São as câmaras que fazem as estrelas (e, infelizmente, já não são as câmaras de cinema).
Há uma profunda falta de consciencialização por parte dos media relativamente ao seu papel informativo cedendo facilmente a um lado manipulador e de formação de opinião. Não é preciso ir mais longe, a libertação de Paulo Pedroso ontem à tarde, 4 meses e meio depois da sua detenção, foi algo que mais se assemelhava ao regresso de um herói de guerra ou de um campeão olímpico (favorecido também pelos seus amigos e colegas de partido) do que propriamente a de um homem que continua sob investigação mas que ganhou a confiança dos 3 Juízes (enfim, de 2) para continuar esse processo cá fora. E é triste que os próprios media, em geral, sustentem e favoreçam o tempo das estrelas públicas como se estivessem sob um tratado de intemporalidade de antena. São logo três conceitos confundidos de uma vez: actor/estrela de cinema/político.
É um pouco angustiante observarmos, diariamente, as estrelas instantâneas e recicláveis que nascem nos diversos horizontes televisivos (desde o «Levanta-te e Ri» até às novelas como «Morangos com Açúcar»). Já nem sequer questiono as qualidades artísticas mas preocupa-me a mera deificação de pessoas celebrizadas pelos mais banais padrões de imagem que reduzem o Ser Humano a um conjunto de elementos físicos distantes dos genuínos conceitos de beleza e arte, favorecendo a mais reciclável fotogenia da imagem. Isto é não só injusto para outras pessoas do mesmo ramo profissional (que não têm as mesmas hipóteses, uma vez que não correspondem ao padrão fotogénico habitual, embora possam ter as mais variadas experiências profissionais), mas também acaba por ser triste e cruel para essas pessoas celebrizadas pela televisão, numa espécie de sucesso instantâneo que terá muito pouco a ver com algum tipo de talento mais especial e interessante. Porquê? Porque são sucessos que duram muito pouco e escorraçam a pessoa para a desilusão e esquecimento. O papel dos media é decisivo neste desequilíbrio de oportunidades? Sem dúvida, mas acima de tudo é o responsável pelo pensamento sem memória da nossa sociedade. Esse é o grande problema.
Tiago Pimentel

Arnie foi nomeado governador da Califórnia sucedendo a Gray Davis no comando de um dos Estados mais deficitários da América. A questão profissional de Schwarzenneger foi, como era previsto desde o início, usada e abusada contra e a seu favor. Num dos seus discursos, Arnie fez a certa altura uma brincadeira com o Exterminador Implacável, dizendo qualquer coisa como: «Gray Davis terminated jobs. It's now time for us to terminate Gray Davis.» Enfim, não consigo precisar a citação, mas creio ter sido qualquer coisa deste género. Será que o cerne de toda a questão eleitoral é perceber se a condição profissional do actor é positiva ou negativa? Será que a comunicação social pretendeu mostrar se o potencial governador poderia estar mentalmente menorizado ou, pelo contrário, mais capacitado para exercer a função de governador do Estado da Califórnia? Claro que não. O problema da comunicação social tem a ver directamente com o problema da mediatização tendenciosa. É um problema, de facto. Arnie tinha sempre as câmaras consigo - sem ilusões, foi isso que, em última análise, lhe valeu as eleições. São as câmaras que fazem as estrelas (e, infelizmente, já não são as câmaras de cinema).
Há uma profunda falta de consciencialização por parte dos media relativamente ao seu papel informativo cedendo facilmente a um lado manipulador e de formação de opinião. Não é preciso ir mais longe, a libertação de Paulo Pedroso ontem à tarde, 4 meses e meio depois da sua detenção, foi algo que mais se assemelhava ao regresso de um herói de guerra ou de um campeão olímpico (favorecido também pelos seus amigos e colegas de partido) do que propriamente a de um homem que continua sob investigação mas que ganhou a confiança dos 3 Juízes (enfim, de 2) para continuar esse processo cá fora. E é triste que os próprios media, em geral, sustentem e favoreçam o tempo das estrelas públicas como se estivessem sob um tratado de intemporalidade de antena. São logo três conceitos confundidos de uma vez: actor/estrela de cinema/político.
É um pouco angustiante observarmos, diariamente, as estrelas instantâneas e recicláveis que nascem nos diversos horizontes televisivos (desde o «Levanta-te e Ri» até às novelas como «Morangos com Açúcar»). Já nem sequer questiono as qualidades artísticas mas preocupa-me a mera deificação de pessoas celebrizadas pelos mais banais padrões de imagem que reduzem o Ser Humano a um conjunto de elementos físicos distantes dos genuínos conceitos de beleza e arte, favorecendo a mais reciclável fotogenia da imagem. Isto é não só injusto para outras pessoas do mesmo ramo profissional (que não têm as mesmas hipóteses, uma vez que não correspondem ao padrão fotogénico habitual, embora possam ter as mais variadas experiências profissionais), mas também acaba por ser triste e cruel para essas pessoas celebrizadas pela televisão, numa espécie de sucesso instantâneo que terá muito pouco a ver com algum tipo de talento mais especial e interessante. Porquê? Porque são sucessos que duram muito pouco e escorraçam a pessoa para a desilusão e esquecimento. O papel dos media é decisivo neste desequilíbrio de oportunidades? Sem dúvida, mas acima de tudo é o responsável pelo pensamento sem memória da nossa sociedade. Esse é o grande problema.
Tiago Pimentel
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