A propósito do que o Fernando (Pipoca Rasca) escreveu sobre a minha posição específica relativamente a Mystic River, nomeadamente a questão da temática, tenho a acrescentar uma ou duas coisas. De facto, concordo com o teu texto e com a forma como sublinhas o pessimismo humano do olho de Clint Eastwood sobre o Ser Humano. Mas se isso é algo que está presente em praticamente todos os filmes do realizador, parece-me que há «nuances» específicas neste Mystic River. Como eu disse, não se trata de um filme sobre a morte: trata-se de um filme instalado nas variações dramáticas que a morte pode impor, nomeadamente aos relacionamentos humanos. E a morte nos filmes de Eastwood tem precisamente uma componente fantasmática ou de assombramento; pode existir na extinção orgânica de um corpo mas também se prolonga como parte de outros corpos (vivos), como por exemplo num miúdo abusado sexualmente que se vê obrigado a redefinir conceitos como o amor e o ódio numa idade onde ignora ainda as variações sexuais desses extremos. É um filme pessimista, sim; ou talvez apenas desmistificador porque desmonta uma ideia universal que percorre geralmente o cinema clássico, isto é: a durabilidade infinita da amizade e do amor e a forma como conseguem ultrapassar todas as adversidades da vida. Em boa verdade, Mystic River é um filme que se instala de forma perturbante na (nossa) vida. Mas, no limite, é um filme onde parecem todos estar mortos. Eastwood conseguiu uma proeza: mostrar a vida com invulgar fulgor, filmando almas penadas.
Cumprimentos,
Tiago Pimentel
Cumprimentos,
Tiago Pimentel
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