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Tiago Pimentel
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segunda-feira, março 08, 2004



A Paixão de Cristo

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A Noite dos Mortos Vivos


O filme de Mel Gibson corre o risco de ser lido como um fenómeno sociológico nas comunidades católicas espalhadas pelo mundo e menos como um acontecimento cinematográfico. Talvez não seja desadequado, de todo, esse pensamento até porque a questão central de A Paixão de Cristo não é o espiritual, mas antes recordar (e exagerar) o sofrimento de Cristo na sua caminhada até ao Calvário e esperar que o espectador caia que nem um patinho na ratoeira manipuladora e maniqueísta que Gibson nos preparou. A fé e a religião não existem porque o Bem tem que lutar contra o Mal; existem porque o Homem, numa altura específica da sua vida, tomou consciência da sua própria mortalidade e da forma como decide orientar a sua vida. Tudo aquilo que existe neste filme gore de Mel Gibson são ícones (an Icon Production?) e não pessoas. Cristo é um ícone, um conjunto estereotipado de ideias e frases vociferadas por um corpo sem qualquer conflito dramático com os desafios humanos que enfrenta. Ao contrário do Cristo de Scorsese que, no limite, não se construía a partir do seu lado divino, mas antes no seu conflito humano: porquê eu? No entanto, é importante sublinhar o trabalho notável de James Caviezel na reprodução exacta daquela que parece ser a figura crística que todos reconhecem. Embora não tenha espaço para uma composição dramática completa, é um trabalho claramente acima de tudo o resto.

A Paixão de Cristo são 2h15min de um espectáculo de sangue e carne que desafia o realismo de qualquer filme gore. Aliás, a cena da ressurreição, tão elogiada nos EUA, parece-me um dos grandes gags do filme. Sem querer estragar a cena a ninguém, essa sequência (a cena final, precisamente) parece recuperar a velha tradição de Romero e pedir uma sequela intitulada “A Vingança do Cristo”. Bom, não será de admirar que as diferentes leituras deste filme se encontrem limitadas pelo seu próprio dispositivo de promoção. Ou seja, um filme que foi promovido como uma experiência profundamente religiosa será, seguramente, olhado como uma espécie de revelação interior da fé de cada um e muito menos como um objecto cinematográfico. Mas o truque máximo de A Paixão de Cristo é aproveitar a imagem e densidade que a personagem de Cristo já ocupa no pensamento crente da maioria da população mundial e torturá-la até não poder mais, sem precisar de lhe dar uma presença genuína. Aliás, o efeito é desconcertante, nenhuma personagem parece existir neste filme; parece um teatro de marionetas, de fantoches programados a obedecerem a todos os clichés e estereótipos a que o maniqueísmo mais banal pode recorrer. Ou não fossem os soldados romanos orcs feios, porcos e maus e o diabo careca com um bebé ao colo. É um filme sem subtileza cinéfila nenhuma, sem alma nem espiritualidade e com uma mala religiosa roubada de uma tenda da feira da ladra. Não fosse o hiper-realismo do sangue e dos golpes e algum virtuosismo na fotografia e este seria mais um banal telefilme de Páscoa sobre a vida de Cristo. Assim, não é banal mas não deixa de ser um insulto.

Tiago Pimentel

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