
Class.:

O Candidato da Verdade
Remake de um filme emblemático de John Frankenheimmer, com Sinatra no papel principal (lembram-se?): The Manchurian Candidate. O Major Ben Marco (Denzel Washington) é um dos sobreviventes de um grupo de soldados que sofreram uma emboscada no Iraque, durante a Guerra do Golfo. Marco esteve inconsciente durante a maior parte do tempo e, do que se sabe, foi o Sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber) a salvar, corajosamente, a vida aos seus companheiros. Este acto de bravura concede-lhe o reconhecimento político e uma candidatura à Casa Branca. Outra das novidades (deliciosa, de resto) é descobrir Meryl Streep numa sedutora versão feminina do diabo em forma de mãe obcecada por reencontrar no filho, as glórias perdidas do pai. A genial sequência da mãe a dar banho a Raymond radicaliza e desafia todos os elementos da moral tradicional, contaminando toda a relação numa obsessão quase incestuosa do amor.
E se Meryl Streep é a edificação radicalizada do amor obsessivo de uma mãe pelo seu filho, Denzel Washington é o olhar do desespero, algures entre a ilusão do sonho e a miragem da verdade. O tempo que o argumento perde em pormenores factuais e de contextualização, retira algum do protagonismo aos interessantíssimos conflitos humanos que desequilibram os personagens; mas é, também, necessário, sabendo que irá ser introduzido um elemento de ficção que precisa de um bom suporte realista que o caucione. Essa ficção, terrenos frágeis e delicados, tem precisamente a ver com teorias conspiratórias que envolvem hipnoses, lavagens cerebrais e homicídios. E Marco (Washingston) está disposto a levar até às últimas consequências as pequenas résteas de fé que tem dentro de si para desmascarar os responsáveis do Manchurian Global por todo este aparato. Um filme que cruza o desespero com a perversão do amor, numa sedutora e sufocante conjuntura visual. A realização de Demme é fundamental, colocando a imagem em constantes planos subjectivos nos olhos dos personagens, como se fossem diálogos directos com o espectador. É a partir daí que fazemos parte dessa cumplicidade e tudo se resume a uma premissa muito simples: ou acreditamos nos olhos dos actores ou nada mais resulta.
Tiago Pimentel
0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home