Sobre Birth...
Um filme que fui ver recentemente e me sinto, confesso, dividido pelo fascínio e pela frustração. Sinto-me fascinado pela sua extraordinária concepção visual, pelo rigor milimétrico de uma mise-en-scéne e uma decoupáge que resgata o valor da montagem e a forma como pode e deve enriquecer sempre o projecto. Recupera o sentido de tempo na montagem, gerindo laboriosamente o tempo de duração de cada imagem e a forma como duas imagens dialogam. O filme deriva desse esquematismo que, nunca sendo gratuito, é sempre programático, um pouco como Kubrick filmava as suas histórias, de uma distãncia visionária como um cientista a colocar as peças num mundo definido por outras regras, outras formas de respirar, olhar e comunicar. Mas não deixo de confessar a minha frustração no fim do filme. Porque se há tanto talento na imagem, já no argumento tudo me parece algo tosco. Como se as reacções humanas fossem contaminadas pelo sonambulismo de cortar à faca que emana da atmosfera do filme. Shyamalan filma corpos dominados por um sonambulismo semelhante mas nunca os entregou a uma espécie de letargia de reacções. De facto, todas as personagens neste filme me parecem reagir sem credibilidade a toda a história. A certa altura, quero acreditar, mas nada do que é humano no filme me cativa. E a premissa não era simples mas o tom sonâmbulo que emerge da passividade dos personagens parece-me um caso claro de contaminação que a matéria humana sofreu da estilização total do filme. Seja como for, Birth é um filme que tem de ser visto, quanto mais não seja porque tem Nicole Kidman num dos seus mais extraordinários desempenhos.
Tiago Pimentel
Um filme que fui ver recentemente e me sinto, confesso, dividido pelo fascínio e pela frustração. Sinto-me fascinado pela sua extraordinária concepção visual, pelo rigor milimétrico de uma mise-en-scéne e uma decoupáge que resgata o valor da montagem e a forma como pode e deve enriquecer sempre o projecto. Recupera o sentido de tempo na montagem, gerindo laboriosamente o tempo de duração de cada imagem e a forma como duas imagens dialogam. O filme deriva desse esquematismo que, nunca sendo gratuito, é sempre programático, um pouco como Kubrick filmava as suas histórias, de uma distãncia visionária como um cientista a colocar as peças num mundo definido por outras regras, outras formas de respirar, olhar e comunicar. Mas não deixo de confessar a minha frustração no fim do filme. Porque se há tanto talento na imagem, já no argumento tudo me parece algo tosco. Como se as reacções humanas fossem contaminadas pelo sonambulismo de cortar à faca que emana da atmosfera do filme. Shyamalan filma corpos dominados por um sonambulismo semelhante mas nunca os entregou a uma espécie de letargia de reacções. De facto, todas as personagens neste filme me parecem reagir sem credibilidade a toda a história. A certa altura, quero acreditar, mas nada do que é humano no filme me cativa. E a premissa não era simples mas o tom sonâmbulo que emerge da passividade dos personagens parece-me um caso claro de contaminação que a matéria humana sofreu da estilização total do filme. Seja como for, Birth é um filme que tem de ser visto, quanto mais não seja porque tem Nicole Kidman num dos seus mais extraordinários desempenhos.
Tiago Pimentel
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