
War of the Worlds, de Steven Spielberg
Class.:

Não é um filme sobre o medo. Não é um filme sobre o fim do mundo. Não é um filme sobre sobrevivência. Não é um filme sobre a família. É um filme sobre a convivência de todas estas componentes num dispositivo dramático que é, de uma vez só, consciente da cultura «fordiana» do colectivo americano como dos destinos individuais que define. Spielberg, além de um cineasta de excepção, é também alguém que repensa a própria condição da América e a sua convivência com todas as outras geografias. No fundo, é o estatuto «fordiano» que restaura a identidade nacional na figura estável e inquebrável da família. Em Spielberg, o colectivo americano faz parte, claro, do imaginário dos seus filmes, embora a família seja já uma imagem sem memória de si mesma. Isto é, nada de estável existe na família; ela é, simultaneamente, a fonte de todos os desequilíbrios humanos e a imagem (ou miragem?) que conduz a narrativa.
Em todo o caso, Spielberg é um cineasta da mais dolorosa orfandade, seja ela geográfica (Terminal) ou materna (Império do Sol). Em War of the Worlds, a relação do Homem com o desconhecido ganha contornos inéditos no seu cinema, mas nem por isso as temáticas se alteram. Pela primeira vez, o desconhecido representa, não a possibilidade de alcançar o mágico ou o divino, mas sim a morte. Não num sentido abstracto ou filosófico, mas na sua mais aterrorizante e desesperante condição. É, sem hesitações, um dos mais geniais filmes de terror jamais feitos. Um terror que não existe só nas imagens de destruição, mas também (e sobretudo) nos rostos preenchidos de terror pelos magníficos actores e milimetricamente fotografados por Kaminsky. O terror não tem tanto a fanfarra pipoqueira e inconsequente de um Dia da Independência, nomeadamente porque não são os invasores que fazem avançar a narrativa, mas sim as personagens humanas. A câmara de Spielberg está sempre ao lado das personagens e o espectador nada mais vê do que o que elas vêm. Num certo sentido, somos cúmplices desse desespero e reféns de imagens cáusticas, caóticas e angustiantes.
O terror existe, obviamente, na possibilidade constante de uma das personagens principais ser vítima de um ser invasor, mas também na angústia de Ray (Tom Cruise) em manter os seus filhos perto de si, no meio de uma América infernalizada. Cada sequência é uma aula de cinema e o mínimo que se pode dizer é que a indiferença é uma fraca moeda de troca para este filme. Ninguém filma como Spielberg, ninguém compõe uma imagem com tantas emoções e pensamentos a coexistirem lá dentro. O sentido de «découpage» da sua câmara é, em si, um objecto de estudo e redefine todas as potencialidades de uma imagem enquanto organismo de comunicação entre os vários corpos. Nunca uma família num filme de Spielberg foi desconstruída neste radicalismo de sobrevivência e desespero por se manter unida. É nesse desespero que se redescobre a paternidade, entidade quase sempre ausente da filmografia do cineasta e, agora (quase 30 anos depois de Roy Neary ter abandonado a família para subir à nave espacial), é Ray que impede, a todo o custo, que a sua filha seja sugada pelas máquinas alienígenas. A entidade paterna reencontra o seu lugar, os extra-terrestres já não são uma figura benéfica e o virtuosismo das imagens do cinema fantástico foi substituido por um hiper-realismo insólito e uma câmara que não abandona as suas personagens. Muito mudou em Spielberg nos últimos 30 anos. Mas a orfandade incurável do cineasta mantém-se, bem como a impossibilidade de restabelecer as coordenadas familiares. Se a família de Ford era um espaço social, em Spielberg é uma utopia abstracta, mas necessária. Uma força que dirige a narrativa e, paradoxalmente ou não, a destrói na sua configuração trágica.
O final do filme (novamente palco de polémicas das mesmas vozes que não se cansam de reduzir as narrativas de Spielberg a felizes/infelizes) é uma imagem de reconstrução (de uma família, de um mundo...) seca, ambígua e crua. É necessário pensar sobre as imagens antes de se precipitarem as mesmas ideias feitas (como as que tenho lido nos ‘sites’ de cinefilia americanos). É que agora traz uma agravante: dado o grau de absoluta fidelidade ao romance original de Wells, é bom relembrarmos que, desta vez, é melhor apontar as críticas dos finais felizes, cor-de-rosa e outros epítetos absurdos ao próprios Wells, para variar um pouco. Quem estiver disposto a pensar, seguramente evitará os rótulos do costume e perceberá que Spielberg raramente foi tão austero e cruel num desfecho. Não sei, confesso, se será da idade ou de um cepticismo que tem assombrado os últimos filmes do realizador. O certo é que a “família” fordiana desapareceu de vez e tudo o que resta são os momentos efémeros em que se revive a ilusão. Que ilusão? A de pertencermos a um lugar.
Tiago Pimentel