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À Procura da América
Uma pequena maravilha! Um filme que viaja nos bastidores do melodrama e reconstrói a fábula americana como reflexo narrativo de todas as identidades. «Elizabethtown» relembra, antes do mais, uma verdade ancestral: a de todos transportarmos connosco, os lugares que visitamos e neles deixarmos, também, pequenos fragmentos do nosso corpo. Tanto mais que o protagonista (interpretado por Orlando Bloom) personifica uma certa errância que tem muito pouco de anónima; ela é, no limite, a herança paterna que nos cabe descobrir. Bloom interpreta um jovem (Drew Baylor) empresário de sapatos que acaba por atingir o mais rotundo falhanço da sua carreira profissional. Consumido pelo peso da vergonha e frustração, Drew considera pôr termo à sua vida... mas antes de o fazer, o seu pai falece, colocando-lhe indirectamente um novo desafio moral. A saber: redescobrir um novo sentido para existir.
Bloom, reconhecendo-lhe todas as (imensas) limitações que lhe aponto, reconheço também que, neste caso específico, não compromete o dispositivo dramático do filme. Aliás, creio mesmo que o seu carisma anorético e a sua expressão desfocada acabam por funcionar mesmo a favor da errância existencial do personagem, emprestando-lhe alguma gravidade que, noutra configuração dramática e narrativa, facilmente se desfazia no ridículo. Kirsten Dunst, resplandecente, habita uma personagem cuja errância se expressa simbolicamente na sua profissão (hospedeira), bem como se desmente na reconstrução de um caminho para Drew seguir e que, de certa forma, os integre aos dois. Creio, também, que Cameron Crowe está a herdar do cinema mudo, uma forma específica de integrar a música nas imagens; isto é: não se trata de preencher as imagens com música, mas sim de as definir como imagens musicais. No limite, não será a música que é intrusiva – uma vez que esta já se tornou a norma formal – mas, sim, os momentos sem música, acabando mesmo por produzirem um silêncio ensurdecedor (e o filme gere de forma exemplar esses «silêncios»).
Cameron Crowe filmou, com este «Elizabethtown», o seu filme mais pessoal, não só por estar directa e intimamente ligado à morte do seu pai, mas também por nele se sentir uma invulgar pulsão genuína no fluxo que dirige as imagens. Genuína porque genuinamente imprevisível: a imagem seguinte é sempre exterior a qualquer previsão de «realizadores de bancada» que lhe queiramos impor. E é, afinal de contas, um filme profundamente americano. Em boa verdade, toda a viagem final de Drew é a ilustração da canção de Simon & Garfunkel, America. Ele partiu em busca da América, a tal América profunda, do interior, onde se reencontrará consigo mesmo. «Elizabethtown», no fundo, é um filme construído como reflexo da vida, habitando os mesmos desconcertantes paradoxos e solidificando-se nos seus diversos desequilíbrios narrativos.
«Elizabethtown» é o nome de uma cidade pequena no interior da América. Mas acaba por ser isso e muito mais: é o lugar simbólico para mergulhar na infinita beleza da tristeza e, daí, caminharmos em frente. Aliás, a ideia sempre presente do caminho parece-me essencial para interiorizarmos o imaginário de «Elizabethtown»: o caminho é, no limite, a construção inacabada do percurso de vida. Esse caminho é-lhe desenhado por ela (Kirsten Dunst) no reconhecimento simbólico de um passado que ele ainda não herdou. Um passado que passa, inexoravelmente, pelo reconhecimento dos lugares que o ilustram; lugares que, por sua vez, são vividos e construídos pelas pessoas que os habitam. Dir-se-ia, no final, que todos habitamos Elizabethtown.
Tiago Pimentel
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