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Tiago Pimentel
Críticas dos leitores para: tiago_pimentel@hotmail.com

domingo, dezembro 03, 2006



Babel, de Alejandro González Iñárritu

Classificação:

A montagem é uma opção moral

Algures na aridez de Marrocos, ela leva um tiro e desespera um pequeno grupo de turistas, durante uma viagem de autocarro. De onde veio esse tiro? A lógica física obriga-nos a uma resposta simples (vendo o filme, sabemos quem dá o tiro), mas a lógica cinematográfica que Iñárritu propõe parece-me mais interessante. Isto é: percebermos que qualquer acto que tomemos terá consequências no mundo. E sabermos de onde veio o tiro não será tanto uma questão física, quanto cinematográfica ou até mesmo moral. A resposta estaria numa das outras histórias narradas neste magnífico Babel. O filme, tal como Iñárritu o constrói, está agora mais próximo de uma lógica de filme-mosaico do que o primeiro Amor Cão (mais fragmentado e difuso), totalizando um todo que é bem superior à soma das suas partes. As personagens parecem estar perdidas numa tragédia errante sem reversibilidade aparente (a menina japonesa com o olhar revoltado, destinada a ouvir o silêncio ensurdecedor de um mundo que lhe fôra vedado, ou mesmo uma senhora mexicana com problemas em estabelecer uma identidade geográfica no país onde vive há 15 anos). A incapacidade dela em ouvir não será uma mera casualidade (Iñárritu merece-nos mais respeito intelectual do que isso), mas sim uma poderosa metáfora sobre a incapacidade de comunicarmos e estabelecermos o nosso lugar no mundo. Filme político? Claro que sim, mas faz questão de o ser de forma absolutamente lateral (o único vestígio de evidências políticas aparece-nos quando os media anunciam o incidente de Marrocos como um atentado terrorista – curiosa exaltação da verdade). A verdadeira mensagem política surge-nos de forma quase purista (porque desarmadilhada de artifícios ideológicos), devolvendo o centro do mundo às suas pessoas. De facto, ela ouve tanto como nós. Não me entendam mal, não pretendo ter um discurso pessimista sobre as relações humanas, mas interessa-me, porventura, reflectir sobre a ideia de não sermos nós que não ouvimos, mas sim o mundo que nada tem para nos dizer. E ela, a menina japonesa, quer sentir o direito a ser amada como qualquer um, mas ninguém a parece ouvir (estarão tão surdos como ela?). Olhando para a verdade global destas histórias, apercebo-me que raras vezes o mundo esteve tão bem representado no cinema e, também por escassas oportunidades foi uma montagem de imagens usada de forma tão dramática. Em última instância, a escolha do plano seguinte afirma-se mesmo como uma opção moral. Qual? A de construir um sentido.

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mesmo que esse sentido seja amoral achas que, ainda assim, constituirá uma opção moral?

Uma opcção significativa, concordo, mas há cinema que não se preocupa sequer em valorizar e esse para mim é o melhor.

De resto, estou curiosíssimo para ver este "Babel", mesmo tendo sido arrasado pela crítica.

Cumprimentos

1:45 da manhã  
Blogger Tiago Pimentel said...

É uma boa questão que, antes do mais, apetece remeter para a própria leitura lógica (embora lateral) do filme. Que é como quem diz: será que quando é dado o tiro, a personagem que o dá é culpada ou inocente? Como sempre, a lógica da culpabilização surge relacionada com um sentido de civismo que pretende distinguir o moral do amoral. E deixemo-nos de ilusões, de facto, a moral hoje em dia é vista como uma conduta de actos eticamente válidos que distinguem os bons dos maus.

Isto para dizer que, a meu ver, sempre olhei para a moral como um conceito bem mais complexo do que isso. De facto, a moral aparece antes: é um compromisso! Um compromisso que assumimos em pensar. Pensar sobre a (nossa) verdade, sobre a verdade dos outros e sobre todos os espaços que a parecem contradizer.

E é isso que me fascina em «Babel». Iñárritu monta as várias histórias como um pensador, alguém que se comprometeu seriamente a pensar sobre aquelas realidades. É uma opção moral! Uma opção com a sua moral, colocando em jogo as suas ideias e convicções. Se elas estão de acordo ou em confronto com os nossos juízos de valor, parece-me uma questão secundária e que, no limite, poderá mesmo servir para desafiar as nossas convicções.

2:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não estava a falar na montagem de Babel em si, não o posso fazer, não vi ainda o filme.De qualquer das formas acho que percebi o que querias dizer.

Não vou muito à bola com "bem e mal", com "bons e maus", não sei sequer o que isso é..., parece-me...
Mas não é de facto isso que interessa, isso são os meus conceitos, as minhas verdades, se lhes quiseres chamar assim...

Apenas questionei o seguinte, será que não é possível montar, significando e não emitindo o juízo de valor? É óbvio que a resposta a esta questão nem eu a tenho. eheh Isso implicaria a capacidade de alheamento e abstracção total do realizador. Não sei se é possível... E, do que conheço de Iñárritu, não será o realizador ideal para aferir esta questão.

Se continuássemos se calhar acabariamos na querela do comprometimento que tanto fascinou os existencialistas franceses. eheh

Ainda assim, foi frutífera a conversa, da discussão nasce a luz.

Abraço

8:26 da manhã  
Blogger Tiago Pimentel said...

É curioso, tive uma sensação muito semelhante à que descreves, quando vi o «Munich», do Spielberg. Em boa verdade, foi uma sensação até, em certa medida, contraditória. Eu explico. Por um lado, senti que o filme tinha uma imparcialidade implacável, cobrindo toda a realidade política e humana do conflito; por outro, senti uma força pessoal tão forte no filme, impondo-lhe um ponto de vista (não é isto que distingue um filme de um digno documentário?) tão íntimo que era impossível ficar indiferente à sua moral.

De facto, o filme (ainda falando no Munich) assume-se como um objecto militante contra qualquer forma de violência. Se bem percebi a questão que colocas, identificas-te mais com filmes que se constroem sem assumirem a sua moral. Eu, para ser sincero, fico sempre algo indiferente a um filme que se distancia de um ponto de vista (um ponto de vista exige sempre uma moral, certo?). Um ponto de vista, ao contrário do que se possa pensar, não é um acto de cobardia per se. É, bem pelo contrário, um acto de compromisso e risco com uma ideia, um conceito, uma verdade.

E Babel de facto, tem esse lado pessoal e íntimo que o coloca na vertigem de assumir um lugar. Mas claro que percebo a tua questão e até as reticências justificadas que colocas no teu texto. De facto, também não gosto quando um filme é ostensivo na sua manipulação. Quando julga as suas personagens de forma desonesta. É ténue a linha entre a manipulação honesta e a desonesta. Relembro-me, aliás, que Munich nunca coloca em causa a dignidade e integridade moral e humana das suas personagens (mesmo em A Lista de Schindler, o próprio Amon Goeth é retratado com a complexidade de qualquer outro ser do filme, sem ser reduzido ao comum estereótipo do vilão descartável).

E esta é, no limite, a máxima que devemos sempre defender. (É pelo menos, confesso, a que sempre aprendi a defender). Saber quando é que um filme honra a complexidade dos seus personagens, independentemente de os criticar ou não. A moral, voltando ao princípio, é um compromisso dificil, de facto. Porquê? Porque exige que mergulhemos na complexidade profunda do ser (e muitas vezes, não é nada fácil nem agradável).

Cumprimentos,

4:10 da manhã  
Anonymous sandra said...

Adorei o filme, é claro que todos queles que viram o filme viram a fantasia que havia dentro daquele filme, paixao e amizade ... Vi os dois filmes e fiquei apaixonada mesmo ... Mas infelizmente nao fiquei a saber se eles ficam juntos ou nao ... alguem me pode dar essa informaçao ? ou tal vez haja um terçeiro filme ? Fico á espera de uma resposta. Beijos

7:05 da manhã  
Blogger Tiago Pimentel said...

Sandra,

Mesmo sabendo que se terá enganado na ficha do filme (penso que queria escrever na ficha do «Antes do Anoitecer») as suas perguntas (pertinentes) não ficarão sem resposta. Ou melhor, não ficarão sem ouvir pelo menos um eco, porque resposta, resposta, creio que ninguém terá uma definitiva.

O filme termina de facto, como o primeiro. Resta-nos, como bem relembra o Jesse, perguntarmo-nos se nos deixamos seduzir pelo romantismo ou pelo desencanto. Seja qual for a hipótese em que encaixemos, é seguramente mais romântico deixarmos o desfecho do filme aos desígnios da nossa imaginação e do nosso desejo.

Em relação à pergunta sobre o terceiro filme, creio que a ideia deles é fazerem precisamente um terceiro filme quando tiverem passado novamente 9 anos sobre a última vez. E nós cá estaremos para assistir novamente ao impasse das suas felicidades.

Cumprimentos

3:44 da tarde  

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